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O CACILHEIRO DOS MORTOS
No convés dum cacilheiro
Andam mortos na pândega
Céu claro rio banzeiro
Nínguem sabe quando chega
Não precisam timoneiro
Muitos deixaram as esposas
Na quinta das tabuletas
Porque a pega a mais vaidosa
Deixa em casa as etiquetas
Basta-lhe ser carinhosa
Não há chulos nem beatas
Nem cangas aborrecidos
Só aceitamos piratas
Verdascos arrefecidos
E palavras insensatas
Esse coro anda de luto
E p’ra achar uma ideia
Aqui não precisa duto
O seu coração granjeia
Um repertório impoluto
Não há letra sem guitarra
Os murmúrios soltam gritos
Quando a noite nos agarra
Todos parecem aflitos
Não há mais linda algazarra
Bastam vinhos e cigarros
E pasteis de bacalhau
Atravessando os pigarros
A voz canta seu solau
Gostamos desses catarros
Como um grande nevoeiro
O fado cobre a cidade
Sem capitão nem roteiro
Só nos fica a saudade
Quando passa o cacilheiro
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