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ANTES DE SINTRA

de René C. Biberfeld

Les amours d'Ulysse et Nausicaa.

La ville des Phéaciens fut écrasée sous une montagne par Poséidon, dépité qu'on eût reconduit Ulysse chez lui. J'ai longtemps pensé que la montagne, c'était Sintra, et que la plage du Guincho correspondait à la description de l'Odyssée.

Cinq chants de dix strophes, de quatorze vers chacune.


 Chegam versos pelas frestas
 Esse luar fica bonito
 Tantas noites tantas festas
 Minha trova tem seu rito
 Sei que as lágrimas d’Ulisses
 Não são mamas de Tiresias
 Deixa là dessas louquices
 A loucura dá parrésias
 Já passaram tres mil anos
 Sob o monte dorme um povo
 Remendei alguns arcanos

Para um romanceiro novo
I
 
 Este poeta fanhoso
 Sabe a musica e a letra
 As cores para o vosso gozo
 Cada seta chega á meta
 A mão corre sobre o plectro
 Quando a frase vai com asas
 Estas contas que soletro
 Pairam encima das casas
 As histórias que cosemos
 Talvez nos venham de fora
 Despertaram nossos demos
 Não aceitarão demoras
 
 Com alento chega á praia
 Quando a balsa espalhou-se
 Um marujo dessa laia
 Que un grande flux nos trouxe
 Duma linda deidade
 Não aturava os cuidados
 As senhoras sem idade
 Só conhecem nossos fados
 Os destinos com gralhas
 Não deixam de crocitar
 Preparam nossas mortalhas
 Agua vai num palpitar
 
 Esta terra tem um nome
 Poca gente conhece a Schéria
 Dos Feaces o renome
 Forneceu muita matéria 
 Do Cabo Raso a Cascais
 Uma esplendida cidade
 Muitas praias alguns cais
 E navios à vontade
 Na planície nenhum monte
 Colinas até o mar
 Um depurado horizonte
 Sem desgraças nem azar
 
 Tanto ropa a estender
 As princesas eram cultas
 E sabiam atender
 Vivas ficavam sepultas
 Escutavam os heróis
 Imposturas são anzóis
 Esquecemos as misérias
 Com as servas de manhã
 A princesa vai à praia
 Uma vida muito chã
 Para esse real catraia

 Enquanto a ropa seca
 A princesa joga á pela
 Ruminando una soneca
 Que a luz do Sol acapela
 Os bóis guardam as carroças
 Houve um grande temporal
 A fazer voar as choças
 Um furioso bacanal
 Qualquer Déus que derramava-se
 Para um enorme castigo
 Mas os ventos nas socavas
 Regressaram não há perigo
 









 
 Nausicaa a triste princesa
 Esperava um grande herói
 Um marujo com certeza
 Tal esperança corrói
 Corações e toda a gana
 O tempo passa dormindo
 Sobre una existência plana
 Tornar-se-á bem-vindo
 O perito gabarola
 Não queremos romancistas
 Só verdades na sacola
 Com emoções imprevistas
 
 Ela parece esperta
 E seria muito lida
  Se houvesse letra certa
 Só palavra sem medida
 Sempre e sempre repetida
 Que arrebata os corações
 Estamos todos de partida
 Não faltam os aldrabões
 Os ouvidos apurados
 Sabiam fechar os olhos
 Carregavam-se com fados
 Orelhas não têm antolhos
 
 Uma rugosa santola
 Com figura humana e barba
 Muito sargaço á gola
 Qualquer fabiano sem garbo
 Aparece lá na espuma
 Muito pelo grande pau
 Um grande farol na bruma
 Avistando o barimbau
 E sem maior alvoroço
 Dizem que parece un homem
 O fruto dalgum destroço
 Um residuo do mar
 Coisas dessas que assomem
 Um bastardo do azar
 
 As vezes um temporal
 Traz um naufrago para aqui
 Tinham todos um casal
 Desgraçada quem sorri
 Quando vê desses ambrósios
 São rafeiros do destino
 Reis grandes pocos negócios
 Aventuras pouco tino
 Ofenderam qualquer deus
 Têm fados interessantes
 Nunca se dizem plebeus
 
 Tiveram muitas amantes

                ***
II

Tinha olhos flor de salva
E também sardas no rosto
A tez diríamos alva
Sobre uma praia d’Agosto
A princesa era bonita
Tal no mar a calmaria
O seu coração palpita
O naufrago não a queria
Sua mulher esperava
Devia chegar um dia
Como una boa escrava
Sem esposo e sem guia

Que lembranças entretanto
Calipso na sua ilha
Não cantarei seu espanto
Quando disse o deus pandilha
Não podes guardá-lo tanto
Era seu mortal a ela
Seu joguinho sexual
O seu bem sua chinela
Imortalidade é chata
Quero a esposa e o filho
Alegria mais barata
Lá sem trela nem barbilho

A deusa não disse nada
Deu machado e seu acordo
Para fazer uma jangada
Com a vela de alto bordo
Ela não pode chorar
Dá as cordas e as velas
Lá vai seu amor ao mar
E acaba essa fabela
A menina não é feia
Nem é deusa nem mulher
A panela já está cheia
Vai fazer o que puder


Uma moça e um marujo
Com os farrapos molhados
E a barba todo sujo
Sal no peito muito assado
Pelo sal não pode ser
Quase morreu afogado
Uma gaivota foi lá ver
Para dizer vá desse lado
Deixa lá essa jangada
Nada pende a esse mastro
Sem pensar mergulha e nada 
Segue-te un deus o rastro

Uma vaga celerada
Com remoinho á frente
Despedaçou a jangada
O deus tinha seu tridente
O rio abaixou a barra
A praia estava perto
O naufrago enfim agarra
O que pode nesse aperto
Havia lá muito junco
Isso pode segurar
O nariz cheio de monco
Afasta-se do mar
















Lá encima no Olimpo
Há quem baralha as cartas
De artificios de garimpo
Essa gente não está farta
Sacrifícios nada fazem
Consultamos os oráculos
Nada teem nos armazems
Esperamos seus mirácolos
Atena disse à menina
Num sonho para casar
Linda roupa boa sina
Rio è bom para lavar

Á sombra de uma figueira
Roncava o pobre naufrago
Farrapos ficaram á beira
Muitas folhas fazem sago
Cobriam o peito e as coxas
A princesa e as servas
Jogavam com una bola
Roupa seca sobre a erva
Nausicaa deita essa bola
Grandes gritos ele acorda
Toma o ramo que ele cola
Ao que parece discorde

Servas fogem fica a princesa
Um monstro não esconde nada
Não sabe o que faz uma alteza
Não foge como uma criada
O monstro sabe falar
Não é um monstro qualquer
Parece no mar um luar
Um sonho para mulher
Pouco importa o que disse
Mendigos a estrangeiros
Que deixa o mar como lixo
Pouco importa o cheiro

Com uma túnica uma banda
Banhado nas águas do rio
Muito azeite pele branda
Via-se mesmo o feitio
Musculatura espessa
Grandes mãos e grandes pés
Era quase uma promessa
Sabe lá o que ele fez
Uma cintura delgada
Passos parecem de gato
A princesa enamorada
Mirava isso com recato

Sobe para o carro o homem
Ficará no arsenal
Andam os machos quase correm
Cada fulano é boçal
Quando há homem com menina
O que dizem não é mal     
Chalaças palavras finas
Atena para ajudá-lo
Faz descer um nevoeiro
Sempre foi o seu vassal
Aquele ousado brejeiro


***

III


Uma cidade bonita
Para un homem esmagada
Não parecia maldita
Sobre o monte não há nada
Mas debaixo que desgosto
Ninguém sabe o que lá tinha
Cada qual fica exposto
Tua sina é a minha
Olha que me esquece a história
Quando pensas nada contas
Para contar basta a memória
Meditar a nada monta

O novoeiro que anda
Pelas ruas nesses tempos
Não é coisa abominada
Homens são um passatempo
Peças nos seus tabuleiros
Atena ajuda Ulisses
O seu pobre aventureiro
Tão esperto infeliz
Posidon rezam os Feaces
Quase todos marinheiros
Não amassem tanto faz
Odiava o viageiro

Foi-se logo o nevoeiro
Quando abraçou os joelhos
D’Arété o marinheiro
Nesse temp tinha jeito
Era mesma a mulher
D’Alcinoos que lá reinava
Rainha se um deus quizer
Que voltasse aonde estava   
Fui-me embora há tantos anos
Tinha esposa linda e brava
Longe deste Oceano
Só a ver quase chorava

Mas um homem nunca chora
Guarda os olhos quase secos
Não se fale disso agora
Os que passam todos pecos
Perdem tempo nos cavacos
Ele espera e só responde
Ás perguntas o velhaco
Quem é o senhor et donde
Duma ilha onde as noites
Duram um dia inteiro
E quando se vai a noite
O sol guarda seu fogueiro

Isso não espanta ninguém
Bem conhecem o oceano
Mas por isso não desprezem
O lago mediterraneo
Muito conta quem viaja
Não conhecem esta imortal
Um boato não ultraja
Nem um conto de jogral
E com uma divindade
Que guarda a gente oito anos
Eterna felicidade
Sim para outros sicranos












E não parece tão lerdo
Sabe muito mais que conta
Os olhos tem elle de cerdo
Cada mão já quase pronta
A fazer tudo o que pode
São maneiras de herói
Cada palavra sacode
Os corações que ele moi
Viveu muito ao que parece
Os anos só o marcaram
De verdade ele merece
As deusas que o amavam

Nunc vi tantos meritos
Disse o rei e manda ás servas
De matar alguns cabritos
Logo aplaude a caterva
Dos gulosos sem vergogna
Vamos encher as barrigas
Dias desses ninguém sonha
Neste reino não há brigas
Só importam os prazeres
Não há pratos mas bons fornos
Falar beber e comer
E não faltam os adornos

Entretanto dorme o homem
Quando dorme é de verdade
Os cordatos assim dormem
Pouco import a saudade
Aurora dedos de rosa
Traz com ela seus desgostos,
A felicidade é prosa
Alegrias nunca aposto
Quando foi-se a noite embora
Logo despertou o gajo
Levantou-se sem demora
Todo limpo com os trajos.

Conta Homero que Atena
Fez ofício de pregoeiro
Anuncia assembleia plena
Para ber o forasteiro
Disse aos velhos da cidade
Parece mesmo imortal
Com o rei fala
á vontade
Na praça do arsenal
Diz Alcinoos quer voltar
O estrangeiro à sua terra
Metemos um barco ao mar
Temos là boas galeras

Galeras dessas não viu
Nosso grande aventureiro
Nada mostra nem um pio
L
á não faltam agoureiros
Os remos á flor de água
Ponte larga e comprida
Espaço nenhum entre as tábuas
Pensa a sua querida
Quatro mastros com as vergas
Imagina quase as vela
Parce mesmo que enxerga
Muitas cordas poucas telas.

***
IV

Não bastavam os cabritos
Há também festa na praça
E no povo grande grito
O estrangeiro tem raça
Matam bois com pernas tortas
Oito porcos doze ovelhas
Trazem legumes da orta
E trabalho das abelhas
Bois na baixa já não há
Nem porcos á Santa Clara
Sabe lá o que será
Lisboa o tempo não para

Ovelhas no Bairro Alto
Cabras cabrões e cabritos
Lá não há faz mesmo falta
Nossas ruas são bonitas
Vão buscar a cada tasca
Boas pipas nas adegas
Olham do fogo as lascas
Os bichos estão esfolados
Um pouco de banha encima
Todos esperam espetados
Para o povo coisa eximia

Traz o pregoeiro consigo
Un aedo muito sabio
Un ceguinho seu amigo
Quase pobre grande labio
Começa logo a cantar
Tinha ele uma citara
Lá vai uma esquadra ao mar
Para mulher Aquiles embirra
Heitor mata muitos Gregos
Patroclo mesmo grande ira
Acabou-se o desapego

Sangue vai até o rio
Aquecem as aguas que correm
Muitos gritos muito brio
Há muitos heróis que morrem
Para Aquiles carregar
E matar gente com glória
Mais que na força Ulisses
Confia no seu ardil
Sabemos o que ele disse
O que fez é mais subtil

Com uma aba do seu manto
Esconde Ulisses as lágrimas
Não era isso um grande pranto
Tantos deuses là por cima
Fez o reu como se nada
Tivesse visto ou ouvido
Comemos bem obrigado
Acabou-se o que tem sido
Ouvimos coisas bonitas
Para acabar vamos ver
Rapaziada emerita
Lutar saltar e correr









Havia lá dezassete
Atletas  grande brio
Nem ficaram ao fim sete
Depois desse desafio
Homero quiz dizer isso
Para encher alguns versos
Não importa por que disse
Enfeitar nosso universo
Fazem assim os poetas
Quando escrevem seus cantos
Coisas lindas nas gavetas
Muita graça na garganta

O estrangeiro olhou tudo
E bateu palmas para todos
Cada un fez o que pude
Muito esforço e bons modos
Mas há sempre uns atrevidos
 Quando a gente que não conhecem
Esperam por alaridos
A pena se interessam
Só faltam de compostura
Músculos sim pouca cabeça
E se têm têm na dura
De inteligencia espessa
 
Disse esse grande pateta
O estrangeiro parece forte
Isso não faz um atleta
Se chegou ventos e sorte
Talvez seja um grande rei
O mar traz lá muitas coisas
Boa cara nada sei
Teria ele uma esposa
Nunca correm os marujos
Nunca saltam nunca lançam
Olhos claros e pés sujos
Muito contam quando passam

Toma Ulisses um pedregulho
Quase uma rocha á praia
Sem vaidade nem orgulho
Que quase foi dar á raia
Onde dormem os navios
Devia saber o rapaz
Quando lançar desafio
Se não parece pugnaz
Um estrangeiro muito vio
Precisava essa derrota
Vai sempre a semente ao moinho
A cada qual sua rota
Muito obrigado adeusinho


***
V

Devia dormir o homem
Esse navio é special
Compreendia que ninguém
Imaginou coisa tal
No mundo que conhecia
Vão do oceano ao mar
Devem passar a Sicília
Para deixá-lo estar
Dormindo na sua ilha
Que agora já não há trilha
Da cidade nem da baía

Onde deviam ancorar
Continentes dizem velhos
Não acabam à beira-mar
Mais longe quase de joelhos
Bailam bailam e deslizam
Devagar devagarinho
Mas o espaço onde bailam
Fica estreito apertadinho
Un joelho sobre un outro
O debaixo não importa
Erupções e terramotos
Bate um continente à porta

Torre de vigia ao rio
Encontra-se um dia á praia
Do aqueduto grande alívio
Não há lá pedra que falha
Mais de très mil anos antes
Nem imagina o leitor
Gritam gritam os vigilantes
Safem-se seja o que for
Navios Tejo acima
Partem carros e cavalos
Cá não queremos vítimas
Vamos ter um grande abalo

Os cães sentem coas patas
Nos olhamos instrumentos
Cada qual aqui recata
O que nosso planeta fomenta
Isto não é coisa fina
Catastrofe iminente
Linda aos olhos triste sina
Nada sabem da ementa
Mas podem adivinhar
Tudo tudo menos isso
Primeiro foge o mar
Não há lá grande alvoriço

Nem os barcos encalhados
Ao fundo do Mar de Palha
O oceano abalado
Vagas nos campos sem falha
Sabem lá o que seu fado
Nos horizontes trabalha
A terra de qualquer lado
Parece mesmo uma toalha
Sacudida
á regalada
Donde caem as migalhas
Migalhas são casas cidades
De nosso orgulho a limalha








Chegou a vaga esperada
Uma muralha de espuma
Até Santarem foi a esquadra
A água detrás arruma
Tudo o que há nas beiras
Só deixa conchas sargasso
De peixe duzentas jeiras
De paços alguma pedaços
Mas o que viram depois
Dores desgostos sem fim
E por enquanto o que foi
Boas pesca fado ruim

Quando descem os destroços
Abria-se uma bocarra
No mar medonho alvoroço
Havia rochas et barra
Uma grande vaga de terra
A boca d’um tamboril
Por cima quase uma serra
Debaixo um fundo funil
Quando fecha-se essa boca
Desaparece a cidade
O que vemos é a coca
Só nos fica a saudade

Chegam outros de Itaca
Tudo o que podem ver
Aquela montagna opaca
Procuram porto qualquer
Acostaram a Cascais
Havia uma linda praia
Aldeia pequena sem cais
Das casas ninguém que saia
Quando parece um navio
Sempre há gente à beira
Com certeza houve desvario
Talvez no rio bateira

De  manhã embocam no Tejo
Vão lá ver se mais acima
Se foi o povo sobejo
Refugiar-se nas cimas
Onde pastam os rebanhos
Viram todos os Feaces
Vivos muitas choupanas
Muitas lágrimas nas faces
Acharam bonito o lugar
Ulisses deu nos Lisboa
Nossa pátria nosso luar
Mesmo chata a vida é boa

Disse um beato maldito
Seja Ulisses o deus
Queria vê-lo aflito
Seu destino não é meu
Ulisses talvez ou não
O que fazem os continentes
Não é coisa de vilão
Cale a boca e aguente
Há muitas coisas nas gavetas
Matéria para cronistas
Se por isso os Lisboetas
Vão dar a volta dos tristes  

***

 

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